Puerto Rico ou O confronto de interesses

Puerto Rico ou O confronto de interesses

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As Américas são o maior fruto do expansionismo europeu. Do Alasca à Terra do Fogo, um novo mundo, diversificado e rico de matérias primas, veio à luz quando Cristóvão Colombo pisou em seu solo. Com o passar dos anos, espanhóis, franceses, ingleses, portugueses e holandeses transformaram tudo a sua volta e de acordo com os seus interesses. Catequizaram, dizimaram, escravizaram, cavaram, derrubaram, cultivaram. Urgia transformar aquelas terras, férteis de incalculáveis possibilidades produtivas e comerciais, numa filial europeia. Quase nada restou então da cultura e organização originais. Novos vilarejos e cidades foram fundados e, com o correr dos séculos, outros povos, miscigenados, deram lugar a astecas, incas, maias e tantas outras civilizações pré-colombianas. A partir do século XVIII, as colônias, libertando-se do jugo das metrópoles, se consolidaram como estados autônomos: EUA, Brasil, Argentina, México, Colômbia etc.

É neste cenário de estabelecimento da cultura econômica europeia em solo americano, num corte temporal qualquer destes quatro séculos de exploração, que se passa o jogo Puerto Rico (2002), um êxito absoluto em todo o mundo desde que foi lançado. Hoje aparece sempre entre os primeiros de qualquer ranking, constitui um modelo exemplar de eurogame de natureza econômica e é, efetivamente, um dos mais estratégicos jogos de tabuleiro de nossa época. Não é difícil imaginar quantos jogos, a posteriori, surgiram inspirados em sua mecânica (ordem variável de fases) e em seu tema principal (agricultura e comércio).

Impressiona em Puerto Rico o fato de ele não possuir nem dados nem cartas, os elementos mais tradicionais para o gatilho de qualquer board game. Todas as suas ações são disparadas pela escolha de uma cartela de função, de um total de oito. O jogador executa a ação que ela lhe oferece, desfruta do seu privilégio por tê-la escolhido e passa a vez aos demais, que a executarão também, mas sem aquele privilégio e de acordo com os seus interesses. Isso é importante – “de acordo com os seus interesses” ou, se preferirem, “objetivos” – pois, ainda que como um simples princípio do jogo, esta ação é igualmente o espelho de uma prática que orientou, em grande parte, a colonização das Américas. Se era o propósito da metrópole, ou mesmo da ex-colônia, ocupar um vasto território e ali construir, não se hesitava em banir ou mesmo exterminar os povos que por séculos haviam ocupado aquelas terras. Um dos mais terríveis exemplos, dentre tantos a “destacar”, desta prática destrutiva é a sistemática matança dos índios norte-americanos durante a segunda metade do século XIX. Dee Brown, em seu livro “Enterrem meu coração na curva do rio” (L&PM, 2003), descreve o extermínio gradativo das nações indígenas dos EUA de um modo tão realista, que chega a nos causar náuseas com tanto sangue derramado. Aldeias inteiras foram chacinadas, sem que se poupassem nem ao menos as mulheres, os velhos e as crianças. Infelizmente, os filmes de Hollywood (mesmo os revisionistas) e toda a cultura de massa não chegam a dar conta desta nódoa na história do “progresso” dos EUA. Não a contento.

Pois bem, o fato de que cada jogador em Puerto Rico joga com seus interesses, indo da plantação em solo fértil à construção nas cidades, é extremamente coerente com o tipo de colonização da ilha de Porto Rico e de grande parte das Américas, nos primeiros ou nos últimos séculos. Que as ações de plantio e comércio de milho, índigo, açúcar, tabaco e café cheguem a produzir um progresso imediato na região administrada por cada jogador é outro requinte histórico a ressaltar.  Não importa se isso se deu em Porto Rico cedo ou tarde; o primordial é que é verossímil, tenha acontecido ou não. Um jogo, como um romance ou um filme, não deve ser a expressão absoluta de um presente ou um passado. Se não tiver anseios históricos ou científicos rigorosos, ele deve ser meramente verossímil, que, grosso modo, é a representação da realidade como ela poderia ser, racionalmente, quer não tenha sido quer não seja. Refiro-me aqui à cartela “Universidade”, que é uma das mais importantes do setor de construção, mas que, em meio àquela parafernália de agricultura e comércio, parece “sobrar”, com seu requinte de progresso intelectual e científico. Se não foi assim em Porto Rico – se tanto lá como no Brasil a Universidade surgiu tardiamente –, ainda assim é verossímil que tivesse sido desta forma, precocemente, e em Puerto Rico, o jogo, o foi! Penso que este é um grande acréscimo do jogo à realidade estreita dos anos de colonização, e ainda mais que, com esta cartela, as ações comerciais do jogador dão um salto, como se, de fato, o agricultor ou comerciante estivessem utilizando in situ os conhecimentos adquiridos na universidade.

Puerto Rico é a representação de um mundo de aparente tranquilidade, sem referência direta à escravidão (outro acréscimo de verossimilhança), onde o mais importante é colonizar, plantar, colher, processar, embalar, vender, despachar e, com isso, conseguir dinheiro e pontos de vitória. A par desta estrutura de produção e comércio, erguem-se os benefícios que uma intensa atividade desta natureza pode e deve proporcionar às cidades e regiões: multiplicam-se as fazendas, ampliam-se as plantações, erguem-se prédios de escritórios, inauguram-se portos, fundam-se universidades. As cartelas de construção representam este progresso e oferecem aos jogadores a oportunidade de diversificar suas ações ou incrementá-las. E, uma vez que os jogadores agem por similitude, um no passo do outro, é neste momento que eles podem, afinal, refinar as suas estratégias, tomando um rumo que, apesar da simetria do mecanismo de jogo, torna-se pessoal e inimitável. Ou seja, do fundo de uma generalização surge uma individualidade. E não será essa a essência de êxito ou fracasso em qualquer atividade agrícola ou comercial? Se é nos detalhes que está Deus (ou o Diabo), é do modo eficaz como as coisas se estruturam que brotam os melhores frutos.

Neste cenário de sonhos de riqueza, todos começam com os objetos de uma mesma oportunidade, mas terminam com o que o seu arrojo empreendedor e seu tino para os negócios podem e chegam a alcançar. O poeta Mário Quintana definiu a ideia de democracia com estas palavras, bem simples: democracia é oferecer a todos o mesmo ponto de partida; o ponto de chegada depende de cada um. Em Puerto Rico isso fica evidente desde o princípio: há nas ações de cada jogador uma diversidade oriunda da sua personalidade, do que ele observa, percebe e elabora estrategicamente, independente do que os outros jogadores estão fazendo, muito embora da rede de atividades de uns e outros, surgirão consequências nem sempre benéficas. Erros não serão perdoados, e vitórias escaparão por entre os dedos, literalmente, por causa de uma minúcia ignorada, de um deslize. Já ganhei assim e também perdi. É inevitável.

Todavia, não há como vencer em Puerto Rico sem aquele refinamento de atividades que a parte de baixo do tabuleiro individual oferece, tampouco é possível vencer sem produzir produtos os mais rentáveis, como café – o ouro negro. O jogador mais perspicaz vai compreender isso de imediato e, mais do que produzir e escoar seu milho, seu café, tabaco, açúcar ou índigo, ele vai usá-los para adquirir dinheiro e pontos de vitória com o auxílio daquelas “frentes de comércio e produção”. Em especial, ele vai compreender que a simetria de ações é um blefe: que o jogo está blefando conosco, assim como o faz a vida, o sistema, a publicidade. Nem tudo que é seu pode e deve ser meu. Quem disse isso? Não importa. O certo é que há uma individualidade que nos divide e que nos diz que, antes de pertencer a um grupo ou a uma maioria, somos “um”. Um mundo de forma e fundo idênticos é um mundo bizarro. Ou talvez uma pilhéria.


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2 Comentários


  1. Belos textos, Mayrant. Oferecem um excelente roteiro para pessoas, como eu, que estão iniciando o conhecimento nesse mundo fantástico dos jogos de tabuleiro. Obrigado por ter me atendido – juntamente com a Lidiane – tão bem hoje a tarde. Abraço.

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    1. Prezado Francisco, fico feliz que tenha apreciado os textos. Os jogos de tabuleiro evoluíram muito e ultrapassam o limite de simples jogos. Posso garantir que a cada jogo um novo horizonte se descortina. Foi uma satisfação recebê-lo em nossa loja, esperamos que os jogos divertam-no e a sua família. Qualquer dúvida, indicação de jogos etc., estamos à disposição. Mais uma vez, agradeço os elogios. Abraço!

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