O “A” de quatro jogos

O “A” de quatro jogos

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O ”A” é a primeira letra de praticamente todos os alfabetos do mundo. É a primeira vogal. É também o mais representativo dos sons em expressões de dor, espanto e alegria. Som fundamental na comunicação dos bebês. Portanto, considerado o som do nascimento das coisas, do alvorecer da vida, como o “i” é o som do amor e da sexualidade, tanto quanto o “u” é o som soturno, sombrio, fantasmagórico, presente em larga escala nas palavras “murmúrio” ou “sussurro”, que, a depender da entonação, evocam vários significados: medo, confissão, ardil, omissão, conluio, chantagem, intriga etc.

O “A” é também o som inicial de excelentes jogos. Escolhi quatro para comentar neste texto, pelas diferenças que encerram, embora o “A”, obviamente, os aproxime e reúna. Estavam como que pedindo “acolhimento”, muito embora guardados no “ar ameno” da estante, uns ao lado dos outros, meio que “afetados”. Vamos e vejamos.

Adios Amigos (2009), de Momo Besedic. Jogo de humor e ironia. Somos pistoleiros do velho Oeste, em duelo. Envolve raciocínio rápido e destreza com os números e com as mãos. Somar e diminuir muito rapidamente, de modo a atingir o alvo: seus oponentes. Além de balas, pode-se usar dinamite. É um jogo de farra, de alegria e diversão para uma tarde inteira entre pessoas amigas cuja companhia gostamos de desfrutar. Sucesso e fracasso neste jogo são o que menos importa. O passatempo proposto é o elemento primordial, na junção perfeita de mecânica e tema, em que rapidez de raciocínio e destreza com os números e com as mãos representam com grande eficácia o momento do duelo entre dois ou mais pistoleiros. Sobreviva, se for capaz!

Arraial (2018), de Nuno Bizarro Santiero e Paulo Soledade. Jogo português que reproduz com esmero o momento do verão lusitano, em que ruas e bairros se pintam de cores, penduram-se balões e bandeirinhas, montam-se arcos, e há comida, bebida e dança, ao som das músicas tradicionais. Corresponde ao nosso São João no Nordeste e às festas juninas em outras regiões do Brasil. Cada jogador se reserva a missão de ser o melhor arranjador do cenário de promoção destas atividades. Com algo de abstrato e quebra-cabeça, Arraial é estratégico e muito tático. Todo o mecanismo de operação do jogo soa azeitado de perfeição. Impossível ficar indiferente a esse jogo. Capaz de seduzir jogadores mais casuais, bem como os mais exigentes, muito embora estes, por casmurrice, talvez nem mesmo se permitam olhá-lo. Jamais saberão o que estão perdendo.

Primeira edição brasileira, da extinta editora Odisséia

Arte Moderna (1992), do já lendário Reiner Knizia. Quando joguei este jogo pela primeira vez, não hesitei em sentenciar: “Excelente! Um dos melhores jogos de leilão que existem! Selo Knizia de qualidade indiscutível. Os jogadores precisam, no entanto, estar em sintonia e saber o que é um leilão, se não o jogo segue morno e sem o rendimento adequado, tanto em diversão quanto em estratégia”. É necessário frisar que no Arte Moderna o leilão não é um sistema que assessora o jogo, como em Power Grid (2004), do Friedemann Friese, ou The Speicherstadt (2010), do Stefan Feld. O leilão é o próprio jogo! Simula um evento em que as obras de alguns artistas são leiloadas de diversas formas; os arremates geram riqueza aos jogadores e prestígio aos pintores. Ninguém assume a responsabilidade por nenhum pintor: simplesmente lucra-se ou perde-se com suas obras, não importa quem eles sejam. Mas conhecer a essência de um leilão é muito importante. Às vezes, eu o jogo com algumas pessoas que acabam por revelar, indiretamente, não saber no que consiste realmente um leilão, pois desequilibram os lances, subestimando uma obra de um pintor em alta e para a qual dão lances ínfimos, ao passo que superestimam, com lances astronômicos, o quadro de um pintor ainda apagado… Claro que isso ocorre no fluxo do jogo, na balança do mercado de arte, não assim como pintei, de maneira tão abstrata. Mas, ao fim, de qualquer modo, subverte a experiência do jogo e o deixa um tanto quanto canhestro, irreal. Por outro lado, Arte Moderna consegue proporcionar momentos inesquecíveis: jogando com minha família meses atrás, surpreendi o orgulho de minha irmã, ao constatar que fora responsável pela ascensão de um dos pintores. Ela olhou para mim e disse: “Fui eu que lancei essa moça no mercado de arte”. A seriedade de sua afirmação excede o jogo enquanto representação, tornando-o um simulacro exato da realidade evocada.

Azul (2017), do Michael Kiesling. A princípio, a gente olha e diz: “Não, não vou jogar este jogo; jamais quis ser pedreiro e assentar azulejos”. Então, por qualquer motivo, um dia o sujeito joga e descobre que, por baixo do tema, esconde-se um jogo que bem poderia ter surgido na China de há dois mil anos. Seu mecanismo é de uma simplicidade estonteante: há um depósito coletivo, aonde vamos pegar azulejos e levá-los ao nosso depósito particular ou, se alguns se “quebram”, ao entulho; depois os assentamos na parede e devolvemos o excesso ao depósito geral. No desenho construído por cada jogador, conforme os modelos possíveis (e cada jogador produz o seu!), as pontuações se sucedem. Um dos desafios de Azul consiste em buscar estabelecer no assentamento dos azulejos a pontuação mais proveitosa. A estratégia está nisso, e em não deixar, igualmente, o adversário tirar o melhor proveito do que se lhe apresenta. Ou seja, não fique torto no seu canto, como diria Drummond. Muitas vezes abdicar de si mesmo para não deixar o adversário produzir é uma tática imprescindível. Pontuar menos e não permitir o adversário pontuar talvez seja o suficiente para vencer. Como os grandes jogos abstratos, Azul impõe que o joguemos com frequência, para que possamos jogá-lo cada vez melhor. O que escrevi tempos atrás eu mantenho: um jogo surpreendente, refinado, encantador.

Bem, eis o que prometi. Alguns dirão que o “A” foi só um pretexto para que eu comentasse mais a fundo esses jogos. Talvez. Mas tudo é pretexto na vida. Se não fosse o “A”, seria o “U” ou o “B” ou o “M”, quem sabe o “Z”… Contudo, é no “A” que tudo começa; o “A” é a abertura para o mundo, e a sua supressão causa espanto. O fato de o “A” ser tão importante sugeriu a um autor sonhar que seria desafiador escrever um livro inteiro sem nem mesmo uma única letra “A”. Ele o fez, mas o livro não obteve êxito, sendo logo esquecido, o que atesta a força do “A”, que é como o oxigênio, sem o qual praticamente não há vida. Ele escreveu um livro sem vida.

No poema que Arthur Rimbaud compôs para as letras vogais, ele diz (em tradução de Augusto de Campos): “A, velado voar de moscas reluzentes/ Que zumbem ao redor dos acres lodaçais”. Estes jogos estavam voando e zumbindo, e o que fiz foi trazê-los para o aconchego das palavras.


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